PAECARÁ, O REFÚGIO!


TÚNEL DO TEMPO
“A HISTÓRIA DE GUARUJÁ QUE OS GAFANHOTOS NÃO CONHECEM”

PAECARÁ O REFÚGIO DOS DESABRIGADOS
A HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO DE VICENTE DE CARVALHO

Paecará é um bairro do distrito de Vicente de Carvalho, hoje transformado numa verdadeira cidade, existente ao lado do velho Itapema, na Ilha de Santo Amaro – do chamado tupi: Po – exprimindo superlativo – e Acuraá “enseada alagadiça”, formando Poacuraá, que se corrompeu e adulterou no correr dos séculos, passando por Poaicuraá e Poaicaráa, antes de tomar a forma definitiva, porém com a mesma significação: “várzea ou enseada extremamente alagadiça” – como era realmente, no antigo estado, antes das drenagens e aterros, sujeita aos alagamentos dos preamares.

O que a maioria da população desconhece é que em 1956, o desabamento dos morros de Santos deixou muitas famílias desabrigadas, a invasão de Vicente de Carvalho ganhou impulso. À falta de terrenos para a localização de novas residências, a área pertencente ao Condomínio Pai-Cará Sociedade Civil, que se encontrava abandonada, foi tomada pelos flagelados, que ali construíram seus casebres. Depois, levas de operários não-qualificados continuaram a chegar, a levantar novos barracos, para eles a única maneira de aproveitar as ofertas do mercado de trabalho da Baixada. Em 1958, alguém definiu a situação de Pai-Cará como de calamidade pública.

Mas toda aquela gente não podia ser desabrigada. E em julho de 58 o governador Jânio Quadros assinou o decreto 33.265 para declarar de utilidade pública e desapropriar uma área de 2.235.479 m².

A lentidão burocrática não deixaria de marcar o andamento do processo, e enquanto ele pulava de uma repartição para outra, o afluxo de novos habitantes não cessava, até se intensificava. Agora eles vinham de vários pontos do País, principalmente do Nordeste, atraídos pela possibilidade de adquirir terrenos a baixo preço e com maiores facilidades de pagamento.

Mutirão ajuda muito – Dois anos se passaram. Em novembro de 1960 o Estado percebeu que o problema requeria solução urgente e novo ato atribuiu ao IPESP a administração da gleba (decreto 37.468). A autarquia pediu a colaboração da Prefeitura de Guarujá, da City e da Cia. Docas de Santos antes de tomar as primeiras providências:

– para impedir a ocupação de área maior, proibiu a extensão dos serviços de energia elétrica a novas casas sem autorização prévia;

– para arejar a área invadida, construiu um grupo escolar e um posto sanitário do lado que permanecera abandonado; com isso, os moradores sentiram-se atraídos a mudar e permitiram divisão mais racional dos lotes.

De grande valia foi a boa-vontade dos moradores, que se organizaram em mutirões para eles próprios executarem o projeto de urbanização (de autoria de Francisco Prestes Maia). Os serviços de arruamento, remoção de casas e extensão da rede provisória de energia elétrica foram feitos com um mínimo de despesas para o IPESP, que de outra forma gastaria muitos milhões de cruzeiros velhos. O trabalho, sempre nos fins de semana e feriados, permitiu a abertura de 15 km de ruas, remoção de umas 200 casas e extensão de alguns milhares de metros de fios.

As tragédias que abalaram o morro

Tremor, barro rolando, gritos. Uma mãe corre para pegar o filho, mas não deu mais tempo. Nada menos que 130 mil metros cúbicos de terra e pedras despencaram sobre sete casas da Travessa da Santa Casa e uma da Rua Rubião Júnior e destruiu parte da antiga Santa Casa.

Aquela mãe da casa de número 13 da pequena travessa morreu, mas a criança, de apenas cinco anos de idade, sobreviveu e revive sua história 54 anos depois. Luís Loureiro Carbone, o Lula, foi o único que escapou. Junto com a mãe Zulmira, morena de olhos verdes, 21 anos de idade, morreram o tio, João Faria, motorista de táxi, a tia e oito primos.

“Estava tudo preparado para a gente mudar naquela sexta-feira, mas minha tia Maria disse que sexta-feira não mudava. Tinha suas cismas. E foi justo na madrugada que tudo aconteceu”. Os gritos dos doentes da Santa Casa chamaram a atenção da mulher que correu, debruçou-se sobre o berço e com esse gesto salvou o filho.

Lula segue contando: “Eu dormia com meu cachorrinho Rubi, que começou a latir. Os bombeiros sabem que onde tem cachorro tem criança. Quando me encontraram, minha mãe estava debruçada sobre mim, e eu sem nenhum arranhão. Ela estava morta, protegendo meu corpo”.

Sem ninguém no mundo, o menino foi enviado para um asilo no Macuco. Mas não ficou lá por muito tempo: o jornalista José Gomes dos Santos Neto, da Gazeta, o adotou. E Lula cresceu na chácara da avó, na Avenida Washington Luiz, 157. Avó sim, porque assim José Gomes o ensinou a chamar sua mãe.

Hoje, 60 anos de idade, Lula diz com um sorriso tranqüilo que valeu a pena ter vivido. Jogou 15 anos pela seleção santista de voleibol e foi bicampeão brasileiro. Casado, três filhos, é funcionário público aposentado e há um ano trabalha na Sabre – Administração de Bens.

E o cachorrinho Rubi, que fim levou? Pois bem, logo que os bombeiros tiraram a terra o animal sumiu. José Gomes não contou tempo, pôs um anúncio no jornal e Rubi foi encontrado, rondando pelos lados do Casqueiro. Mas vejam só que trágico destino: 10 anos depois, morreu sob as rodas de um bonde, na Avenida Conselheiro Nébias.

Tentam reconstituir a fuga de um presidiário e morrem no túnel que escavaram – Em menos de 24 horas o Brasil inteiro comentava a fuga de Sete Dedos e outros criminosos da Penitenciária do Carandiru. Ninguém até então conseguira transpor os muros do presídio e o assunto ganha a rua. No Monte Serrate, garotos tentam reconstituir a fuga e acabam mortos.

Manoel Vieira, 12 anos de idade; Rubens Gonçalves Faia, 10 anos de idade; José de Castro e seu irmão Sérgio de Castro foram as vítimas de mais essa tragédia. Munidos de apetrechos necessários, eles e outros amigos iniciaram a escavação de um local, de modo a abrir um túnel.

Dona Maria, moradora do morro há 55 anos, ainda se lembra: os garotos estavam entretidos, instalando lâmpadas queimadas no túnel, quando dona Carolina passou e alertou sobre o perigo que corriam. Eles riram, não ligaram. Nisso dona Rosa (mãe de Manoel) chegou chamando o filho mais velho, Alfredo, para buscar carne.

Eram quase 16 horas e a chegada de dona Rosa acabou dispersando parte dos meninos. Restaram os quatro, e pouco depois Rubens corria em direção à saída, chamando os demais para tomar café. Seus gritos de pavor logo em seguida, denunciavam o pior. Já não dava tempo para socorrer ninguém. Dona Rita, mãe de Rubens, tirou até terra com a boca. Tudo em vão!

Em 56, novos deslizamentos. Os danos materiais são muitos, mas não há vítimas – Santos ainda não se recuperava do drama vivido poucos dias antes no Morro do Marapé, quando novos deslizamentos ocorrem em vários morros, entre eles o Monte Serrate.

Uma das barreiras se precipitou na Rua Rubião Júnior, no mesmo local onde aconteceu a catástrofe de 1928, enquanto outra, na altura da Rua Tiro Naval, soterrou duas oficinas mecânicas e obstruiu totalmente a Rua Senador Feijó, no trecho entre a Casa de Peças Internacional e a Marmoraria Porta. Uma pedra de grande porte demoliu outra oficina, na altura da Rua João Éboli.

Houve ainda deslizamentos no ponto onde se situavam os elevadores do Monte Serrate, e o paredão junto às escadarias acabou destruído. Os danos foram ainda maiores para os lados da Rangel Pestana, onde havia um depósito de transformadores da City. Desta vez, como por milagre, não houve vítimas fatais.

Fonte: Novo Milênio
Jornal A Tribuna

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comentários
  1. Muitos santistas não reconhecem o valor de Vicente de Carvalho: seja por preconceito, seja por ignorância (ato de não conhecer). Mas esta reportagem mostra que há muito tempo, o que hoje representa o comércio, já representávamos em solidariedade e humanidade.
    Eu sou daqui e sei o quanto precisamos evoluir. Quem tiver reclamações, apareçam, para variar, com soluções.

    • Nossa cidade é repleta de boas histórias, é lamentável que elas sejam desconhecidas da maioria da nossa população. Os santistas deveriam abandonar o preconceito e dar o braço a torcer, pois aqui os recebemos de braços abertos e até hoje eles não reconhecem a importância desta cidade.

  2. Wagner Lima disse:

    Ótimo artigo! Parabéns, Vergara!

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